Neste último domingo do ano, preparando-nos para o Ano Novo, vamos refletir nestas palavras que transcrevemos da carta aos Hebreus 12.1-4:

  • “… visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.  Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue…”

As “testemunhas” são os heróis da fé mencionados no capítulo anterior, homens e mulheres do Velho Testamento que ousaram crer nas promessas de Deus (11.33ss). É verdade que alguns “morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (11.13). Morreram com a certeza de que Deus cumpriria suas promessas… Com os olhos da fé, eles viram as coisas acontecendo, lá na frente, nas gerações vindouras ou na eternidade! Sabiam que estavam de passagem no mundo… Daí essas referências: “Deus não se envergonha deles…” (11.16) e “homens das quais o mundo não era digno” (11.38). Seus nomes e a lembrança deles nos rodeiam, nos inspiram, nos encorajam.

“…desembaraçando-nos de todo peso…” O “peso” que embaraça, que impede, pode ser uma preocupação, um ressentimento, uma inimizade, a riqueza, os compromissos sociais, o status. O status e os tesouros do Egito foram os empecilhos dos quais Moisés se desembaraçou a bem de uma carreira muito bem sucedida (Hb 11.24-26). As riquezas foram  um empecilho para o jovem rico que procurou Jesus (Lc 18.22-24).

“e do pecado que tenazmente nos assedia”. No contexto, o pecado é  a incredulidade (3.12-19). Mas, pode ser qualquer outro. Todos temos um ou mais pontos fracos, e algum pecado que “tenazmente nos assedia”, que volta, que é difícil deixar definitivamente, e nos embaraça ou impede, Preguiça? Mentira? Maledicência? Lascívia? Televisão ou Internet demais, indiscriminada? Pornografia? Um namoro mundano? Um caso extra- conjugal? Temos que nos desembaraçar ou livrar disto! Antes de atravessar o Jordão e iniciar a conquista de Canaã, Israel teve de santificar-se (Js 3.5). O pecado oculto de Acã foi a causa da derrota do povo de Deus na conquista de Ai (Js 7). Pecados ocultos ou públicos têm destruído muitas vidas e até  igrejas!

“… corramos com perseverança a carreira que nos está proposta…” A “carreira” é plano de Deus para a nossa vida (Sl 139.16). Em suma: obediência e serviço; vida cristã e missão; ajuda aos necessitados e evangelização. Note que o autor inspirado usou o verbo “correr”. O cristão não pode ficar parado nem pode andar devagar; tem de “correr”, e “com perseverança” (ver 10.36).

“…olhando firmemente para o autor e consumador da fé, Jesus”. As referidas “testemunhas” são exemplos de fé e perseverança. Sua lembrança nos inspira e encoraja. Jesus muito mais! Ele é o “autor e consumador da fé”. Quer dizer, ele põe a fé em nosso coração; e pode aumentá-la (Lc 17.5). Ele também consuma a fé, ou seja, recompensa a fé. Quem corre precisa olhar para a frente, para um determinado alvo; se olhar para trás ou para os lados, desvia-se, tropeça e cai. Correndo na vida cristã e no serviço de Deus, podemos pensar noutros que correram e foram bem sucedidos; mas não podemos tirar os olhos de Jesus. Ver I Pe 2.21.

Ele, “em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz… não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus”. Essa tradução sugere que Jesus deliberadamente submeteu-se à encarnação, ao sofrimento e à vergonha da cruz, em lugar da alegria que sempre teve e continuaria tendo no céu, se tivesse permanecido lá (Jo 17.4-5; Fp 2.6-8). Mas a Nova Versão Internacional traduz: “Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha…” E a Bíblia na Linguagem de Hoje: “Ele não deixou que a cruz o fizesse desistir. Ao contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, não se importou com a humilhação de morrer na cruz…” Nesse caso, Jesus suportou a cruz no antegozo da alegria de ser o Salvador do seu povo, depois do necessário sofrimento (ver Is 53.11). Qualquer que seja a tradução, temos que fixar os olhos em Jesus! O amor que o levou a trocar (ainda que temporariamente) a alegria do céu pelas tristezas, lutas e sofrimentos da terra é nossa inspiração maior. Também nos inspiramos e encorajamos pensando na alegria por vir, prometida aos que chegarem vitoriosos ao final da carreira (I Co 2.9).

Chegando o Ano Novo, reanimemo-nos lembrando a “nuvem de testemunhas”, os exemplos maravilhosos de crentes do passado remoto e mais recente; desembaracemo-nos de todo peso e do pecado que nos assedia; e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para Jesus! Será um santo remédio contra a fadiga e o desânimo!

Pr. Éber Lenz César, no Boletim da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, em 27/12/2009