Com títulos tais como “O faz-de-conta das Olimpíadas de Pequim”, “Farsa olímpica” e “Parece, mas não é”, jornais e sites nacionais e estrangeiros publicaram, no último dia 12, “detalhes reveladores da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim”.

A menina Lin Miaoke, de 9 anos, que cantou a música “Ode à Pátria”, na verdade não cantou; ela apenas dublou a voz de outra menina… Foi o diretor musical do evento que resolveu contar. “Quem cantou de verdade foi Yang Peiyi, de 7 anos, vencedora do concurso que escolheu a melhor cantora para a festa. Ela tem uma voz perfeita, mas seus dentes são desalinhados e ela é pouco agraciada (feia, com o perdão da palavra). Ela gravou a música que a modelo Lin Miaoke simulou cantar…”

Posteriormente, a pequena cantora, a verdadeira, disse ao jornal chinês “China Daily” que não se arrependeu de emprestar sua voz a Lin, e acrescentou: - Estou orgulhosa de ter sido escolhida para cantar, pelo menos…” Humildade? Ingenuidade? Cabeça feita?

Soube-se também que as pegadas de fogos de artifício exibidas no telão e nas televisões do mundo inteiro foram imagens criadas por computador; não foram as verdadeiras, que os espectadores presentes no estádio Ninho do Pássaro viram. E tem mais: os organizadores estão destacando “batalhões de torcidas” voluntárias para ocupar os lugares vazios dos estádios e torcer por seus atletas. E um taxista comentou com seu passageiro: “Não pense que eu trabalho sempre assim de terno e gravata. Isso é só agora, nas Olimpíadas, para impressionar o freguês”. Quanto faz de conta!

O faz-de-conta de Israel.

Há paralelos no Velho Testamento, na igreja do primeiro século e na igreja de hoje. No Velho Testamento, Israel, em certos momentos de sua história, também fez de conta na sua condição de povo de Deus. Foi tanto que Deus lhes disse por boca do profeta Isaías: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios… Não continueis a trazer ofertas vãs… Não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene… Pelo que, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço… Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem…” (Is 1.10-17). Naquela mesma época, Deus lamentou: “… este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim…” (Is 29.13). Séculos mais tarde, Jesus aplicou estas palavras aos líderes religiosos do seu tempo (Mc 7.6-7). Até onde aplicam-se a nós?

O faz-de-conta da igreja.

Os tais líderes religiosos dos tempos de Jesus faziam estardalhaço de suas ofertas, gostavam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças e desfiguravam o rosto quando jejuavam, tudo para parecer que eram piedosos e generosos. Sua religiosidade era um faz de conta ou, como Jesus dizia, uma hipocrisia! (Mt 6 2,5,16). O apóstolo Paulo, escrevendo ao jovem pastor Timóteo, advertiu contra aqueles que “tendo forma de piedade, negam-lhe o poder” (I Tm 3.5). Uma aparência de religião, mas sem o poder que transforma a vida. Em contrapartida, o mesmo apóstolo mencionou sua alegria e orações de gratidão a Deus por Timóteo, cuja fé era “sem fingimento” (II Tm 1.5).

Trazendo para os nossos dias. Não será que, em muitos aspectos e muitas vezes, nossa vida cristã e nossos cultos são um faz-de-conta? Repetimos belas e profundas confissões de fé; sabemos “evangeliquês” e, nessa língua dos evangélicos, dizemos coisas bonitas… Dizemos, mas será que praticamos? Reunimo-nos para adorar a Deus com hinos e cânticos espirituais e para aprender e crescer com a pregação da Palavra. Sequer prestamos atenção no que cantamos e no sermão? Estes exercícios espirituais, somados à leitura bíblica e à oração individuais têm mudado nossos hábitos, santificado nossas relações, transformado nossa vida? Ou é tudo um faz-de-conta para desencargo da consciência e para causar boa impressão?

Pastores pregam ou publicam sermões de outros pregadores ou autores, sem referir o crédito e sem a fé, a convicção e a coerência deles; solistas, grupos e bandas, às vezes, põem lá um playback e fazem de conta que estão tocando e cantando. Até poderiam, às claras, fazendo justiça aos verdadeiros executores e acompanhando de coração. Líderes religiosos e igrejas, muitas vezes, usam seus “fogos de artifício”, ou sejam: retórica, declarações bombásticas, testemunhos induzidos ou mesmo forjados, show gospel, marketing, etc. para exibir pegadas falsas de Jesus por cima e por fora do templo (ou da igreja propriamente), pegadas diferentes da realidade que os de dentro podem ver.

Sempre houve e sempre haverá “joio” no meio do “trigo”, como ensinou o Senhor Jesus. O joio parece trigo, mas não é trigo, definitivamente. O que queremos ser, com a graça de Deus? No fim, o “joio”(o crente “faz-de-conta”) vai ser rejeitado e condenado, mas o “trigo” (o crente verdadeiro e sincero) será recolhido para o “celeiro” do Senhor, também chamado Céu (Mt 13.24ss). Não adianta fingir, fazer de conta, somente parecer. Cedo ou tarde, às vezes bem cedo, como nestas Olimpíadas, a verdade vem à tona. Quando não, “o Senhor conhece os que lhe pertencem” (II Tm 2.19).

Pr. Éber César, no Boletim da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, 17/08/2008.