O FRUTO DO ESPÍRITO: VII. BONDADE

É interessante notar que em todo o Novo Testamento, apenas dois homens são chamados “bons”: José de Arimatéia e Barnabé. Teriam eles alguma qualidade especial que nos ajude a compreender melhor o que é bondade?

1. JOSÉ DE ARIMATÉIA, HOMEM BOM E JUSTO.

José, natural de Arimatéia, cidade dos judeus, participou da fatídica reunião do Sinédrio, o conselho judaico, em que “os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte”, e em que “uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam” (Mt 26.59,67). Contudo, de acordo com o relato de Lucas, este “homem bom e justo” não concordou com o desígnio e ação dos outros (Lc 23.50-51).
E mais, no dia imediato, logo em seguida à morte de Jesus, José de Arimatéia “tendo procurado a Pilatos, pediu-lhe o corpo de Jesus, e, tirando-o do madeiro, envolveu-o num lençol de linho e o depositou num túmulo aberto em rocha, onde ainda ninguém havia sido sepultado” (Lc 23.52-52).

2. BARNABÉ, HOMEM BOM, CHEIO DO ESPÍRITO SANTO E DE FÉ.

Um outro “José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer filho de exortação, levita, natural de Chipre” (At 4,36), foi enviado a Antioquia pela igreja de Jerusalém, a fim de observar e, se necessário, corrigir um avivamento que estava acontecendo ali. “… os que foram dispersos, por causa da perseguição… se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia, no anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Alguns deles, porém, de Chipre e de Cirene, e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor” (At 11.19-21). O fato novo, preocupante, era a evangelização dos gregos, ou seja, dos gentios.
Que fez Barnabé, tão logo chegou a Antioquia? Censurou o trabalho? Criticou os missionários evangelistas porque eles estavam fazendo alguma coisa nova, diferente do que se fazia em Jerusalém e em toda parte? Ordenou-lhes que pregassem somente aos judeus? Nada disso! Ele procurou ver o que havia de melhor naquele esforço evangelístico, e, mais que tudo, procurou observar se Deus o estava abençoando. O texto diz: “Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se, e exortava a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor…” (At 11.23). Por que Barnabé agiu desse modo? “Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (v.24).
Este mesmo “homem bom” fora o primeiro dos líderes da igreja em Jerusalém a acreditar na conversão de Saulo, e a dar-lhe uma oportunidade. “Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos…” (At 9.26-27). Ele acreditou também naquele movimento em Antioquia, tanto que “… partiu para Tarso à procura de Saulo; tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E por todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinavam numerosa multidão” (At 11.25-26). No se enganou. “Em Antioquia foram os discípulos pela primeira vez chamados cristãos” (At 11.26). E foi dali que o próprio Barnabé, e Saulo, dirigidos pelo Espírito e enviados pela igreja, partiram para uma primeira e grande viagem missionária (At 13.1-3). Antioquia tornou-se um centro missionário.
At 4.37 revela uma outra expressão de bondade por parte de Barnabé: “… como tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos”.

3. BONDADE E GENEROSIDADE.

Nestes dois exemplos de “homens bons”, descobrimos que o significado primordial da palavra bondade é generosidade.

a) Generosidade em relação ao julgamento. José de Arimatéia foi generoso durante o julgamento de Jesus no Sinédrio; no se deixou levar pelas paixões e ódios dos outros; teve coragem para opor-se à maioria, e votar pela verdade e pela justiça; depressa percebeu que Jesus era a bondade em pessoa, e posicionou-se a seu favor. Barnabé foi generoso e arejado ao avaliar o esforço evangelístico dos cristãos de Chipre e de Cirene em Antioquia; dispôs-se a enfrentar “os da circuncisão” em Jerusalém, os judeus mais estritos que no concordavam com a evangelização dos gentios “incircuncisos”; percebeu que aquele movimento tinha a bênção de Deus, e resolveu apoiá-lo e cooperar com ele.

b) Generosidade no que toca ao uso dos bens e do dinheiro. José de Arimatéia deu o seu túmulo novo para Jesus. Barnabé deu o seu campo para a obra missionária e assistencial da igreja. Homens bons, generosos no dar. Na parábola dos Trabalhadores na Vinha (Mt 20), o “dono da casa” foi generoso com os empregados contratados em horas diferentes durante o dia. Quando um deles murmurou porque o patrão pagou o mesmo salário aos que trabalharam menos tempo, o “dono” respondeu: “São maus os teus olhos porque eu sou bom?” O “dono” no tinha que pagar o salário de um dia aos que trabalharam meio dia, um terço de dia ou apenas uma hora; mas ele decidiu fazê-lo. Por que? Porque era um homem bom, generoso. E ainda teve quem murmurasse contra ele…

Cooperemos com o Espírito na produção desta faceta do Seu maravilhoso fruto em nossos corações. Que os exemplos de José de Arimatéia e de Barnabé, e principalmente o do “Dono da casa”, que é Deus Pai, e também Jesus Cristo, nos inspirem. Que se possa dizer de nós o que Paulo escreveu aos Romanos: “Certo estou, meus irmãos… de que estais possuídos de bondade…” (Rm 15.14).

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Éber M. Lenz César, Igreja Presbiteriana das Graças, Recife, 20/06/93