Fruto do Espírito: IX. HUMILDADE

Em Gl 5.22-23, a virtude cristã mencionada em seguida à fidelidade é mansidão. Contudo, noutras passagens do Novo Testamento, a mansidão é associada à humildade com muita freqüência. Há uma correlação entre as duas virtudes. Jesus disse aos Seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração…” (Mt 11.29). Paulo escreveu aos efésios: “Rogo-vos que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda humildade e mansidão…” (Ef 4.1,2). E aos colossenses: “Revesti-vos de humildade, de mansidão…” (Cl 3.12). Assim sendo, vamos ver primeiro o que é humildade. Depois consideraremos a mansidão.

1. HUMILDADE DIANTE DE DEUS.

Humildade é, antes de tudo, uma atitude de reconhecimento e dependência diante de Deus. Uma pessoa verdadeiramente humilde reconhece, por um lado, a grandiosidade de Deus e, por outro lado, a sua própria pequenez, e depende de Deus. O sábio rei Salomão falava disto quando escreveu: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e n_o te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos… N_o sejas sábio aos teus próprios olhos…” (Pv 3.-7). Mais a frente, ele acrescentou: “O Senhor… dá graça aos humildes” (Pv 3.34).
Tiago retomou e desenvolveu este tema em sua epístola, na parte final do Novo Testamento: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Sujeitai-vos, portanto a Deus… Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará…” Ele aplicou o princípio da seguinte maneira: “Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros. Vós n_o sabeis o que sucederá amanhã… Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, n_o só viveremos, como faremos isto ou aquilo. Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna” (Tg 4.6-10,13-16). Aprendemos aqui que o oposto da humildade é a soberba, e que o planejamento sem oração, sem consulta a Deus, e sem sujeição à Sua vontade soberana é pretensão arrogante.

2. HUMILDADE DIANTE DOS HOMENS.

É claro que uma pessoa humilde diante de Deus torna-se humilde diante dos homens. Paulo escreveu aos romanos: “Pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que n_o pense de si mesmo além do que convém, antes pense com moderação… Porque somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo, porém, diferentes dons…” (Rm 12..3-6). As implicações são claras: O cristão n_o pode pensar que é o tal, que sabe muito, que n_o necessita de ajuda. Conquanto possa e deva alegrar-se com a “função” que o Senhor lhe atribuiu no “corpo”, e com a maravilhosa oportunidade de servir, deve ser humilde, e reconhecer as suas limitações e necessidades. Usando outra vez a figura do corpo para descrever os relacionamentos, funções e serviços mútuos dos cristãos na igreja, Paulo escreveu aos coríntios: “N_o podem os olhos dizer à mão: N_o precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: N_o preciso de vós.” (I Co 12. 21).
O mesmo apóstolo escreveu ainda aos filipenses: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fl 2.3).

3. A HUMILDADE DE JESUS.

Na seqüência desta última passagem, Paulo recomendou: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus… a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo; …a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2.5-8). Vemos aqui que Jesus foi humilde diante do Pai e diante dos homens, e que Sua humildade manifestou-se pelo menos de duas maneiras:

(a) Uma vida de completa obediência ao Pai. Ele mesmo dizia: “Eu n_o procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou… Eu n_o tenho falado por mim mesmo, mas o Pai que me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar” (Jo 5.30; 12.49). No Getsêmani, na véspera da crucificação, Ele orou: “Meu Pai: Se possível, passe de mim este cálice! Todavia, n_o seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” Em seguida, orou segunda e terceira vez, dizendo: “Meu Pai, se n_o é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26.39,42). E pensar que alguns Pregadores da Prosperidade e da Saúde ensinam que o crente deve orar exigindo ou reivindicando direitos… Isto n_o é fé, é falta de humildade, e presunção.

(b) Uma vida de abnegado serviço aos homens. Na última ceia com os seus discípulos, Jesus “levantou-se, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido… Depois… voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, faças vós também” (Jo 13.3-5,12-15). Que lição de humildade! Hoje, n_o precisamos lavar os pés uns aos outros, mas há uma variedade enorme de humildes serviços que podemos fazer
Jesus disse também: “O Filho do homem n_o veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Até onde vai o nosso desejo de servir, a nossa disposição para nos doarmos aos familiares, aos irmãos em Cristo, aos necessitados, aos que n_o conhecem a Cristo?

Próxima: X. Mansidão

Éber M. Lenz César. Igreja Presbiteriana das Graças, Recife, 18/07/93